Quem Sou eu
Antes de qualquer coisa, eu sou palhaça.
Estudo o erro, a falha e a arte de despencar há mais de 26 anos (pois é). Afinal, quer maneira melhor de conhecer alguém do que no momento exato em que a pessoa escorrega, gagueja ou perde absolutamente tudo? É no instante do equívoco que a nossa verdade mais nua brilha.
Viver como imigrante e, mais tarde, trabalhar com refugiados foi o meu mergulho definitivo na inadequação — e na liberdade absurda que existe do outro lado do medo. Esse estudo do riso me empurrou direto para a psique humana, para a nossa relação com a vergonha e com o ridículo.
Hoje, sou uma psicanalista-palhaça. O que eu faço é buscar caminhos para que a gente consiga existir além das nossas angústias, mas com uma dose generosa de afeto e, claro, deboche.
Como dizia o Veríssimo: só é verdadeiramente livre quem não tem medo de ser ridículo. E sejamos sinceras, a liberdade dá um trabalho fascinante.
Clínica rizomatica
Tirar a psicanálise do salto alto e descer pro chão da vida não é uma urgência.
Sempre me incomodou ver a clínica trancada em torres de marfim, engomada por um carão acadêmico. A vida nemsempre cabe em teorias estéreis. Foi cansada de ver tanta gente adoecendo pela exigência de ser impecável, resolvida e performática que decidi botar no papel o meu próprio método.
Porque sim, o humor tem método. Freud foi genial ao estudar a estrutura do chiste, mas cá entre nós: faltou a ele sentir na pele o risco, a vertigem e a beleza de rir do próprio ridículo.
A minha proposta, no divã e na vida, é construir um estado de jogo, nunca de hierarquia.
Não estou aqui para te entregar diagnósticos emoldurados nem para te olhar do alto de um saber absoluto. A minha escuta foi batizada no picadeiro e amadurecida na clínica: eu escuto a sua dor com a densidade e o respeito que ela exige, mas sem aumentar um grama sequer do peso que você já carrega no peito.
Quando a gente consegue olhar para o próprio drama, para as nossas inadequações e para as tentativas patéticas de dar conta de tudo e, de repente, ri… algo mágico e libertador acontece. O opressor interno perde o chicote. A angústia deixa de ser um teto de chumbo e vira uma fresta por onde o ar volta a entrar. O riso é a prova irrefutável de que a dor não colonizou todo o seu território.
Se a sua análise não te devolve a espontaneidade, o respiro e a coragem de brincar com o que te assusta, ela está só trocando o modelo da sua gaiola.
O meu convite aqui é a gente abrir a janela, desarmar a pose e lembrar que abraçar o nosso próprio absurdo é o jeito mais bonito, poético e radical de continuar vivo.
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